Crítica

Crítica – “Judas e o Messias Negro” quebra a imagem hollywoodiana do FBI

O filme dirigido por Shaka King, que concorre ao Globo de Ouro mostra a vida e a morte de Fred Hampton, presidente dos Partido dos Panteras Negras em Illinois, a traição de William O’Neal e o terrorismo do FBI.

O novo drama Judas e o Messias Negro volta para os anos 60, quando o FBI rotulava o movimento do Partido dos Panteras Negras “a maior ameaça à segurança interna do país”. Em 1968, um jovem ativista carismático chamado Fred Hampton tornou-se presidente da filial de Illinois dos Panteras Negras, que lutavam pela liberdade, o poder de determinar o destino da comunidade negra e o fim da brutalidade policial e do massacre de pessoas negras. Hampton inspirou uma geração a se levantar e a não cederem a opressão, o que o colocou diretamente na linha de fogo do governo, do FBI e da polícia de Chicago. Mas não demorou muito para que seu radicalismo em forma de protesto e altruísmo fosse interrompido; Hampton fora sido traído por um dos seus, e assassinado enquanto dormia em sua própria casa.

Por décadas, Hollywood tem apresentado a imagem do FBI como o melhor tipo de policiamento, sendo personificado, estereotipadamente, como um homen branco, hétero e atlético. O que se caracteriza como a imagem de fidelidade, bravura e integridade. Um destes exemplos é o filme biográfico de J. Edgar Hoover estrelado por Leo Di Caprio, onde se parece mais interessado na sexualidade reprimida de Hoover do que no seu racismo, enquanto que em “Mississipi em Chamas” de Alan Parker o FBI foi até pintado como o salvador branco do movimento dos direitos civis, assumindo o Ku Klux Klan. Mas neste longa podemos ver detalhadamente a distância pela qual o FBI e todos envolvidos passaram para sabotar o movimento fundado por Martin Luther King.

O filme toma como ênfase o lado pessoal de Fred Hamptons e nos desdobramentos que levaram a traição de Williams O’Neal, o “Judas”, infiltrado do FBI, o longa encaixa uma abordagem mais humanizada não só do movimento Panteras Negras, mas também do protagonista.

Shaki consegue emplacar um elenco ofegante, com Daniel Kaluuya (Corra!) e Lakeith Stanfield (Atlanta) que entregam performances de tremenda intensidade, brilhante e cativante.

Se surpreende com o longa que por ser uma historia real, acontece a mistura da ficção dentro da história verídica, onde o diretor desafia as possibilidades que distanciam O’Neal da sua missão, fazendo o espectador acreditar durante o filme num “talvez”, mesmo sabendo em sua conclusão que nunca houve escapatória.

Judas e o Messias Negro conta com uma ótima direção, um elenco que entrega uma performance de arrepiar os cabelos, e um roteiro que flui tão natural quanto a luz do dia, e funciona a partir da ação do Partido dos Panteras Negras e a reação dos policiais, culminando na perseguição violenta e silenciosa que permeou por um tempo até resultar no assassinato de Hampton. Associado com a caçada de “gato e rato” que perpetua durante o filme, o diretor consegue humanizar O’Neal, deixando claro um contraponto à narrativa principal, que O’Neal também foi vítima do sistema policial, independente do quão grande tenha sido sua responsabilidade.

SaraFreitas
Apaixonada por cinema!

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