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‘Ti Ti Ti’ será a próxima novela a ser cancelada pelos jovens noveleiros?

Na próxima segunda (29) volta ao ar o remake de “Ti Ti Ti”, exibido originalmente entre 2010 e 2011 e que vinha sendo uma das novelas mais pedidas pelos telespectadores para ser reprisada no “Vale a Pena Ver de Novo”.

Quem acompanha as reprises pelas redes sociais, ainda mais pelo Twitter, deve ter notado que sempre há alguém que critica o comportamentos dos personagens e da história, esquecendo que a novela nada mais é do que uma reflexão da sociedade na época em que foi produzida. Com isso, levanto nesse texto alguns momentos do remake escrito por Maria Adelaide Amaral que podem ser “cancelados” pela nova geração, e também, o intuito de levantar questões sobre as mudanças em que o nosso convívio social teve nesses 11 anos, junto com o crescimento de movimentos sociais.

Diálogos e piadas da trama que hoje são homofóbicos (ou digno de um programa de humor do Multishow)

Na novela, o personagem Adriano (Rafael Zulu) é um homossexual afeminado e que trabalha na Moda Brasil, a principal revista de moda da trama. Em determinado momento, o personagem é tratado como “bicha”, de forma pejorativa, pelo Coronel Gastãozinho Malta (Walter Breda) e isso é levado para o tom da comédia.

Porém, a situação piora quando o Ariclenes/Victor Valentim (Murilo Benício) se refere ao Adriano como “franga de macumba” (por ser um homem negro gay afeminado) e, novamente, isso é tratado tom cômico e algo que, atualmente, não podemos imaginar que um protagonista fale. Levando para os dias de hoje, uma “piada” dessas se encaixa como homofobia, racismo e intolerância religiosa.

Outro ponto envolvendo piadas que hoje soam mal a comunidade LGBTQIA+ está em um trocadilho nada agradável em que a Jaqueline (Cláudia Raia) faz, dizendo pegou uma arma de choque de um skinhead antes que um homossexual fosse agredido em uma Parada Gay (em 2010 ainda não era usado Parada LGBT). Para quem não conhece, skinheads são um grupo associado ao nazismo e extrema-direita. Em sua exibição original, a “piada” foi ao ar meses antes de três jovens homossexuais ser agredido por lâmpadas pelo mesmo grupo durante a Parada Gay na Av. Paulista.

Mocinha é agredida pelo ex-parceiro, o obriga a casar e o público torce para que terminem juntos

Se tem algo que olhando para os dias de hoje que não faz sentido é quererem que Marcela (Ísis Valverde) e Renato (Guilherme Winter) terminassem juntos. O playboyzinho, que abandou a jovem grávida em Minas Gerais, nada mais do que agrediu a mocinha ao revê-la após a confirmação de que Paulinho é seu filho e foi registrado pelo Edgar (Caio Castro), com quem Marcela estava apaixonado.

Após agredi-la, Renato junto com o seu pai Giancarllo (Mauro Mendonça) armam uma situação para que Marcela seja obrigada a casar com o playboy, pois caso contrário, o pai de Edgar, o Gustavo (Leopoldo Pacheco), perderia os poderes da editora no qual o Giancarllo acabou comprando e sendo o acionista majoritário.

Com isso, Renato e Marcela se casam e, ao passar o tempo, ele acaba se demonstrando mais sentimental e compreensivo, fazendo com que o público torcesse na época para que terminassem junto. Na sociedade de hoje, isso é completamente incompreensível. O exemplo disso está em “O Outro Lado do Paraíso”, em que o autor até cogitou com que a Clara (Bianca Bin) voltasse a se relacionar com o Gael (Sérgio Guizé), que havia a agredido e estuprado. O público acabou reagindo contrário e a protagonista terminou com Patrick (Tiago Fragoso). Ou seja, hoje não é mais aceito com que a mocinha fique com o seu agressor.

O marketing do batom Boka Loka hoje é considerado crime

Quem acompanhou as duas versões de “Ti Ti Ti” não se deve esquecer do batom “Boka Loka”, criado pelo Victor Valentim para engajar com as suas clientes e a sua marca. Na história, o marketing do cosmético é usado como “um batom para atrair homens”, porém, em determinados momentos, é visível que as personagens que usam o produto são beijadas à força, por conta do feitiço que há nele.

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Comparando com a sociedade de hoje, beijar alguém contra a vontade e sem consentimento é considerado crime de importunação sexual, conforme a lei 13.781/18, ou seja, uma divulgação dessas no momento de hoje não há como.

Em 2010, assim como na trama, o mesmo marketing foi usado para comercializa-lo na vida real, através de um licenciamento entre a Globo e a Avon, o que ainda fica mais impossível de se imaginar em 2021. Quem está acompanhando o BBB 21 ou é cliente da empresa, devem notar que a Avon é uma marca em que usa como em sua divulgação a diversidade e o empoderamento feminino, ou seja, uma campanha envolvendo assédio não se encaixa mais.

Visão elitista preconceituosa sobre o funk e a periferia

Nos meados da trama, os vestidos de Jacques Leclair (Alexandre Borges) são deixados no carro, em que foi abandonado pela Jaqueline. Com isso, os bandidos de uma comunidade da periferia de São Paulo roubam, depenam o automóvel e pegam as peças de roupas e distribuem para as mulheres.

Com isso, o estilista fica com raiva e demonstra toda a sua visão preconceituosa sobre a outra realidade, e que história, é tratada de forma bem caricata, com o estereótipo da mulher funkeira. Comparando com o realidade de hoje, no qual pode até ser dito o crescimento do funk em outras camadas sociais e até mesmo fora do Brasil, uma história assim já soa como velha.

Gordofobia da personagem moderninha

Em um momento da trama, a Jaqueline fala que o Jacques só teria que atender clientes acima de 90Kg, pois assim, ele não daria em cima. Caso não seja editada no “Vale a Pena Ver de Novo”, é uma fala que com certeza será ressaltada por Alexandrismos e todas que seguem o movimento corpo livre (para quem não conhece, é um movimento das mulheres aceitarem o seu corpo).

Jacques, Pedro: dois personagens machistas

Com todo movimento feminista que foi crescendo ao longo desses anos, Jacques com certeza hoje estaria preso e respondendo a processos de assédio sexual e moral. O exemplo disso está na forma em que trata a sua empregada, a Rosário (Rosanna Viegas), no qual chega a beijar a força durante o episódio do batom Boka Loka, fica de cueca na sua frente e corre atrás dela e a trata com umas piadas preconceituosas, sem falar que trabalha em seu atelier e em sua casa, sem receber nada a mais sobre (lembrando que as empregadas domésticas só viriam ter igualdade de direitos somente em 2013).

Caso não seja cortado, vocês poderão acompanhar um momento em que Pedro (Marco Pigossi), tido como pegador, deixa uma das suas mulheres em que está saindo em uma rua deserta e escura. No dia seguinte, seu pai Jacques o critica e fala que não deveria ter feito isso, alegando que ela poderia ter sido estuprada. Pedro reage falando que nem ligaria. Pesado, né? Nem precisa comentar mais sobre.

Além deles, ainda há o Armandinho (Alexandre Slaviero), que acaba trancando Stéfany (Sophie Charlotte) em seu quarto para não sair com roupas curtas. Outro momento abominável.

Apesar dos pontos citados, “Ti Ti Ti” é uma novela que marcou gerações tanto em suas duas versões e, apesar do diálogo, traz em sua essência algo que nunca estará velho: a busca pela fama. Nesta primeira semana, a adaptação da obra de Cassiano Gabus Mendes dividirá a faixa com a reta final de “Laços da Família”. Na semana seguinte, ocupará a faixa de forma integral.

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Fernando Machado
Publisher e criador do site

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