(Izabella Lages; Rute Endo; Giselle do Carmo; Priscila Spadinger e Jordana Souza são exemplos de mulheres que resistiram e se destacaram em mercados com forte presença masculina)
Fim da disparidade de gênero no mundo avança em marcha lenta. Brasileiras insistem e ocupam espaços de poder, pressionando por investimento, formação e mudanças culturais
Elas ficaram quando a estrutura social dizia que não era lugar para elas. Em mercados desenhados por e para homens, as empresárias Jordana Souza, Priscila Spadinger, Giselle do Carmo, Izabella Lages e Rute Endo resistiram, conquistaram espaços de liderança e, hoje, ajudam a redefinir o papel das mulheres em diversos setores da economia brasileira. Elas trabalham com gestão e visão estratégica, tecnologia, viagens corporativas, eventos, construção civil e advocacia, e suas trajetórias ganham destaque neste Dia Internacional das Mulheres.
O Global Gender Gap Report 2025, mostra que o mundo ainda avança lentamente na redução da desigualdade de gênero. O estudo avalia quatro dimensões: participação e oportunidades econômicas, nível de escolaridade, saúde e sobrevivência e empoderamento político. Entre os 148 países analisados, o relatório aponta que a disparidade de gênero permanece em 31,2% no cenário global e em 28% no Brasil.
O relatório global de empreendedorismo feminino, GEM Women’s Report 2025, mostra que as mulheres têm 47% mais probabilidade de encerrar seus negócios por motivos familiares ou pessoais do que os homens. Foram avaliados 51 países, incluindo o Brasil.
Mas existem mulheres que não cedem e colocam todos os seus esforços na carreira. Jordana Souza, 36 anos, é cofundadora e diretora de novos negócios da VOLL, maior agência de viagens corporativas digital da América Latina. Saída do interior de Santa Catarina para as grandes cidades e primeira da família a se formar na faculdade, ela conta que “o maior desafio, enquanto mulher, foi acreditar que eu podia ocupar um espaço de protagonismo também no digital”. Só com o tempo ela diz ter aprendido a se posicionar, compartilhar ideias e liderar mudanças com autenticidade. Por isso, fez questão de abrir portas para outras mulheres quando fundou a VOLL, “incentivando que elas ocupem espaços estratégicos na área de dados, produtos e inovação, vendas ou onde elas quiserem”.
A executiva ressalta que, atualmente, 66% dos cargos de liderança da VOLL são ocupados por mulheres. Jordana é peça-chave nessa iniciativa e na conquista de clientes como Itaú, Nubank e iFood — além da Localiza como acionista —, com um total de 850 mil usuários no app de gestão de viagens a trabalho. Pelo impacto da sua atuação no setor, ela entrou para a lista dos 100+ Poderosos do Turismo PANROTAS.
À frente da Aleve LegalTech Ventures, criada para suprir uma lacuna de tecnologia e inovação no setor jurídico, Priscila Spadinger, 44 anos, afirma que “as mulheres são a força motriz da ética e da inovação inclusiva na próxima onda digital”. Especialista em fusões e aquisições (M&A) e investidora anjo, ela já apoiou a venda de uma startup desenvolvida dentro da Aleve e tem outras 11 investidas, avaliadas em R$ 180 milhões.
Priscila conta que utilizou o empoderamento digital para quebrar o ar de ‘arcaico’ e inacessível do Direito e do mundo dos negócios. “Criei plataformas e modelos de gestão que são ágeis, transparentes e que colocam a tecnologia a serviço do empreendedor, não só do grande capital”, afirma. Ela relata, porém, ter lidado com todo tipo de assédio no mundo do trabalho — moral, sexual, intelectual — pelo simples fato de ser mulher. “A transição para o ‘empoderamento digital’ não foi só aprender a tecnologia, mas usá-la como uma ferramenta para legitimar minha voz e minhas decisões”, destaca.
Giselle do Carmo, 36 anos, é sócia-fundadora e CFO da MeEventos, plataforma integrada de gestão de eventos. Ela começou alugando uma cabine fotográfica para eventos, junto ao seu sócio Tiago Ferreira, por meio de um sistema simples. O sucesso da ferramenta fez o negócio crescer e os sócios perceberem que podiam mais, criando, então, a MeEventos como uma plataforma completa para a gestão de eventos, des de a seleção de equipes até o controle financeiro.
Ela observa que as mulheres sempre estiveram presentes nesse mercado, principalmente na organização e na execução, frequentemente na cozinha, na recepção e como promoter. Mas que nos últimos anos elas vêm ocupando mais cargos de liderança e influenciando decisões. “Nós costumamos unir visão prática, sensibilidade com pessoas e atenção aos detalhes, características que são essenciais em um mercado que lida diretamente com experiências”, avalia. Em 2025, a MeEventos faturou R$ 5,8 milhões, R$ 1,8 milhão a mais que o ano anterior.
A empresária aconselha outras mulheres que queiram empreender no setor de eventos: “Trate o evento como um negócio desde o primeiro dia. É um mercado apaixonante, mas que exige planejamento e controle financeiro. Conheça profundamente os custos e os processos. Já vi várias pessoas entrarem nesse mercado com foco apenas na entrega, e acabam tendo dificuldades para crescer ou até para se manter”.
Já o setor jurídico não é tradicionalmente afeito às mulheres. “Como mulher na liderança, enfrentei principalmente o desafio de fortalecer minha autoconfiança em um ambiente predominantemente masculino”, comenta Rute Endo, 43 anos, sócia administradora da Ivan Endo Advocacia, escritório boutique com foco nos Direitos Imobiliário, Tributário e de Família e Sucessão. O escritório fundado por seu pai em 1965, em suas mãos passou por uma modernização — mais de 3 toneladas de pastas físicas foram digitalizadas. E os casos defendidos somam mais de R$ 1 bilhão em tributos economizados e R$ 1 bilhão em patrimônio familiar preservado.
Para ela, as mulheres têm um papel crucial na transformação do setor, pois a diversidade de perspectivas enriquece a forma de interpretar e aplicar as leis, bem como ampliar as abordagens para resolver conflitos jurídicos e questões de negócios. “Tenho orgulho de fazer parte dessa mudança e estar ao lado de advogadas, juízas, procuradoras, promotoras, desembargadoras, ministras extremamente competentes. Aprendo e me inspiro em muitas colegas”, declara.
Izabella Lages, 35 anos, sócia da Arthros Incorporadora, construiu uma trajetória que rompe barreiras em um setor tradicionalmente masculino ao integrar direito, empreendedorismo e associativismo à incorporação imobiliária. À frente da Arthros, consolidou também uma atuação relevante no associativismo industrial, com passagem pela presidência do Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) Jovem e, atualmente, como vice-presidente de Comunicação do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), além de representante da FIEMG no Fórum Nacional de Novos Líderes Industriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
“Percebo uma evolução importante no ambiente dos canteiros de obra. Hoje vemos muitas mulheres altamente competentes atuando na construção civil, ocupando posições técnicas e de gestão. O caminho agora é seguir ampliando oportunidades com base em competência, preparo e responsabilidade”, observa Izabella.
Ao longo do caminho, enfrentou desafios comuns de mulheres jovens em posições de liderança, mas não permitiu que isso definisse sua história. “Aprendi que ambientes se transformam não apenas pelo confronto, mas também pela presença qualificada, pela coerência entre discurso e prática e pela capacidade de evoluir junto com o outro. Cada obstáculo foi uma oportunidade de amadurecer, fortalecer minha voz e compreender que liderança se constrói com tempo, escuta, responsabilidade e entrega”, reflete.








