Enquanto serviços públicos e privados migraram para o ambiente online, milhões de pessoas ainda operam sem identidade digital formal, assumindo riscos invisíveis no dia a dia.
O Brasil avançou rapidamente na digitalização de serviços públicos, obrigações fiscais e processos empresariais. Declarações, contratos, petições, receitas médicas e uma série de atos da vida civil migraram para o ambiente digital. No entanto, esse avanço não veio acompanhado de uma discussão ampla sobre identidade digital.
Na prática, grande parte da população ainda acessa sistemas sensíveis, assina documentos e delega poderes utilizando métodos frágeis, como login e senha compartilhados, autorizações informais e assinaturas sem rastreabilidade. Esse comportamento se tornou comum não por desconhecimento técnico, mas por falta de orientação clara sobre alternativas mais seguras e acessíveis.
O paradoxo é que a infraestrutura para uma identidade digital formal já existe há anos no país. O certificado digital, utilizado em obrigações fiscais e contábeis, é reconhecido juridicamente e tem custo relativamente baixo. Ainda assim, permanece associado à ideia de burocracia, quando, na prática, passou por um processo significativo de simplificação.
Segundo Ana Paula Conti, advogada e proprietária da LVR Certificadora, o problema não é tecnológico, mas cultural.
“O Brasil digitalizou processos, mas não educou as pessoas para operar no digital com identidade. O resultado é um uso massivo de atalhos que funcionam no curto prazo, mas criam riscos jurídicos e operacionais no futuro”, afirma.
Esse atraso fica evidente na rotina de contadores e profissionais que atuam como intermediários entre o cidadão e o Estado. Em períodos de alta demanda, como o Imposto de Renda, é comum que acessos sejam delegados sem critérios claros, aumentando a exposição tanto do cliente quanto do profissional responsável.
Ao mesmo tempo, soluções de identidade digital se tornaram mais acessíveis. Certificados com acesso via SafeID, por exemplo, podem custar pouco mais de R$ 100 por período, valor inferior ao gasto médio com deslocamentos, reconhecimento de firma e retrabalho causado por inconsistências documentais.
Ainda assim, a decisão de formalizar a identidade digital costuma ser adiada. Para especialistas, isso revela uma desconexão entre a exigência digital do Estado e a preparação da sociedade para operar nesse ambiente.
“O certificado digital não deveria ser visto como algo excepcional, mas como um item básico de organização da vida digital. Assim como CPF e RG no mundo físico”, reforça Ana Paula.
Enquanto a discussão sobre identidade digital permanecer restrita a nichos técnicos, a tendência é que milhões de brasileiros continuem assumindo riscos invisíveis, não por falta de opção, mas por falta de clareza sobre o papel que a identidade digital desempenha na vida moderna.








