Por Roberto Gonzalez (*)
No cenário corporativo contemporâneo, a governança deixou de ser um conjunto de regras estáticas para se tornar um ecossistema dinâmico de interações humanas e institucionais. A governança participativa e a transparência na tomada de decisão surgem como pilares fundamentais para a longevidade das organizações, mas enfrentam obstáculos como o medo da exposição excessiva.
Gestores temem que o ato de “abrir a cozinha” fragilize a vantagem competitiva ou gere ruídos entre os públicos estratégicos. Contudo, a prática demonstra que o segredo de uma governança robusta reside na estruturação de modelos que promovam o engajamento através de múltiplos níveis de influência. A transparência, quando bem aplicada, não é apenas um dever de prestar contas, mas um ativo estratégico que atrai investidores, talentos e outros públicos de interesse da organização. O desafio moderno é calibrar essa abertura para que sirva como indutora de valor sustentável sem comprometer o sigilo necessário à estratégia competitiva.
A governança participativa rompe com o modelo de comando e controle verticalizado, propondo instâncias onde diferentes níveis da organização tenham canais de voz ativos. Modelos multiníveis utilizam comitês de assessoramento e conselhos consultivos para garantir que a decisão final seja precedida por percepções plurais. Segundo o IBGC, a transparência consiste em disponibilizar informações verdadeiras e relevantes, contemplando fatores ambientais, sociais e de governança.
Quando os critérios de decisão são claros, o engajamento aumenta, pois o profissional que compreende o fundamento de uma diretriz estratégica sente-se parte do processo, reduzindo conflitos de interesses. Um elemento crucial nessa engrenagem é o papel do Governance Officer, profissional que assegura a fluidez das informações e atua como guardião dos ritos que permitem a participação sem anarquia.
O Hospital Santa Izabel exemplifica como a transparência gera compromisso coletivo através de sua adesão ao movimento Race to Zero. A instituição assumiu publicamente o compromisso de alcançar o “zero líquido” de emissões, implementando um sistema de indicadores mensais de gases de efeito estufa. O receio inicial da exposição de dados negativos foi superado pela percepção de que a transparência validava a estratégia perante a sociedade. Ao abrir dados de consumo energético, o hospital engajou equipes na busca por tecnologias limpas, resultando em redução de 3.556 toneladas de CO2 por ano e economia financeira robusta. Já o Hcor utilizou a governança participativa para consolidar sua gestão ambiental sob a norma ISO 14.001, democratizando o conhecimento técnico. Ao integrar a capacitação ao programa de remuneração e compartilhar relatórios de conformidade, a organização transformou funcionários em agentes de mudança, alcançando 95% de adesão nos treinamentos.
A Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) oferece uma visão sobre o equilíbrio entre o caráter familiar e a profissionalização de alta transparência. A FJLS enfrenta o desafio da sucessão estabelecendo distinção clara entre os papéis da família instituidora e a gestão executiva. Sua arquitetura multinível conta com Conselho Superior, e Comitês de Assessoramento, garantindo que decisões de grande impacto não sejam monocráticas nem baseadas em laços afetivos. Ao incorporar conselheiros independentes e profissionais de mercado, a fundação aceita a exposição de processos em troca de robustez estratégica. A governança da FJLS é comparada a um móbile, onde o equilíbrio dinâmico é mantido por um sistema de transparência e mútua dependência entre todas as peças. A prática da accountability é exercida ativamente, garantindo que a descentralização da execução ocorra sem a perda da identidade institucional.
A transição para modelos participativos enfrenta desafios como a resistência cultural de agentes centralizadores e a necessidade de políticas rígidas para o tratamento de informações confidenciais. Entretanto, os benefícios superam os riscos: organizações com governança participativa apresentam melhor mitigação de riscos, maior atração de talentos, resiliência em crises e fortalecimento da reputação junto à sociedade. A análise dos casos demonstra que o medo da exposição excessiva é um obstáculo cultural superável com método e cultura. A governança participativa significa o fortalecimento institucional através da diversidade de perspectivas e do pensamento integrado. A transparência, longe de ser uma vulnerabilidade, é o maior ativo de proteção de uma instituição moderna, sendo o combustível essencial para o crescimento sustentável.
(*) Roberto Gonzalez é consultor de governança corporativa e ESG e conselheiro independente de empresas. Foi um dos idealizadores do ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3. Conquistou o prêmio ABAMEC em 2004 defendendo o ESG na Análise Fundamentalista. É autor do livro “Governança Corporativa – o poder de transformação das empresas”








