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Crítica – ‘Dom’ traz Pedro Dom sob a visão de seu pai e divergências a vida real do criminoso

Nesta sexta (04) chega na Amazon Prime Vídeo a sua primeira série nacional dramática, “Dom”, em que conta a história de Pedro Dom, um jovem de classe média alta que acaba virando usuário de drogas ainda criança e na adolescência e consequentemente se torna um dos bandidos mais procurados do Rio de Janeiro. Na produção, é interpretado pelo Gabriel Leone, em seu primeiro papel tenso e, diga-se de passagem, com uma boa interpretação.

A história paralelamente também fala do pai do Pedro, o policial Luiz Victor Dantas, que também escreveu livro “O Beijo da Bruxa”, que serviu de adaptação para a série. A interpretação é de Flávio Tolezani, conhecido por “Verdades Secretas”, “Eta Mundo Bom” e “O Outro Lado do Paraíso”.

As duas narrativas acabam se misturando ao falar sobre as drogas no Rio de Janeiro, no qual no foco do Luiz é de como a cocaína chegou na cidade, em que troca o sonho de ser nadador para trabalhar como espião do exército, se infiltrando em uma favela em um período bem longe de como as conhecemos hoje, com casas de madeira, no qual a produção da série fez em um espaço em uma comunidade da capital carioca. O foco mostra quem era o pai do Dom e da história da cocaína, mas que não explica a relação do Pedro a seguir o caminho errado.

Indo para a história principal, a trama de Pedro Dom é contada desde o seu primeiro contato com a cocaína, aos 12 anos. Nesta mesma idade já estava roubando para suportar o seu vício. Ao crescer, se torna um dos bandidos mais poderosos do Rio de Janeiro, chegando a assaltar residências de luxo na Zona Sul da cidade. Seu pai Luiz tenta de tudo para não perder o seu filho para as drogas.

A abordagem tratada pela produção é impactante e densa conforme é esperado para uma história com esse foque. Luiz é um pai que tenta consertar um erro que foi causado por ele, segundo disse em entrevista após a morte de Pedro em 2005: “Eu errei. Meu casamento era uma porcaria. Faltava amor, faltava tudo. Uma briga só. Eu queria esperar meus filhos crescerem para me separar. Mas um dia achei que tinha o direito de ser feliz sozinho. O problema é que o Pedro só tinha quatro anos. Acho que fui egoísta. Eu deveria ter tentado segurar o casamento mais uns quatro anos. Se tivesse uma segunda chance, eu faria diferente.”

O ex-policial também culpa a então namorada de seu filho, a Bibiana, que na série é interpreta pela Isabella Santoni com o nome de Viviane, em um papel dramático no qual não estamos acostumados a vê-la. Luiz até confessou que queria mata-la, mas depois disse que não levaria a nada: “Essa mulher era drogada e ferrou a vida do meu filho. Ela o levou para o crime. Eu já quis mata-la. Tive as sensações menos humanas em relação a ela. Mas matar não resolveria nada.”

O Breno Silveira, diretor da série, também contou que Pedro Dom é um bandido formado por duas mulheres, no qual a segunda é interpretada pela Raquel Villar, que diferente da Bibiana, chega a sair do crime para reconstruir a sua vida. Breno também acerta em ir na contramão de um hábito que já vinha tendo nas produções, que é em relação ao estúdio. Todas as tomadas de “Dom” são em externas, o que aproxima o espectador da história, porém cometendo um deslize em relação a cenografia. O Rio de Janeiro dos anos 2000 tem muito a cara dos anos 90, com direito a uma discoteca, uma palavra não mais usada no período, com elementos atuais e não da época. Um exemplo disso é quando o Victor Dantas aparece em sua juventude conversando em uma área do Boulevard Olímpico, inaugurado em 2016 e esquecendo que na mesma época havia um viaduto no local, chamado de Perimetral, demolido em 2014.

Um outro ponto de Breno é de que procurou recriar o que aconteceu usando a visão do pai (que chegou até a produtora para que a história fosse realizada) e a adaptação da história feito pelo Tony Beloto como base. É um ponto de vista interessante, pois trouxe uma olhar mais íntimo em relação ao Pedro, explicando um momento do sumiço dele, que foi quando se internou em uma clínica para dependentes químicos e refez a sua vida ao lado de sua família por volta de 2002/2003. Porém, ao final, acaba não dando a devida ênfase aos últimos dias de Pedro.

Na vida real, Dom se torna um dos bandidos mais famosos do Rio em 2004, após um assalto que, segundo o pai, não cometeu. A partir daí, se integra a facção ADA (Amigos dos Amigos) e se refugia no Complexo da Maré e na Rocinha. Esses momentos não são descritos na história, no qual reconstrói como se tivesse isolado em um apartamento na Zona Sul, comprado pelo dinheiro do crime.

Sua morte também tem uma divergência em relação ao que aconteceu e o que foi mostrado: segundo relatos da polícia, Dom furou um cerco policial no Túnel Rebouças, usando uma granada que acabou ferindo o delegado Eduardo Clementino, titular da 22ª DP na época, e logo em seguida travou uma perseguição, no qual acabou sendo baleado no playgroud em um prédio na Lagoa com cinco tiros. Seu pai Luiz defende uma outra versão, de que seu filho foi executado pela polícia e contestava a versão de que foram cinco tiros que o matou: “Bater na polícia não vai trazer meu filho de volta. Ele já morreu. Mas tenho certeza de que Pedro foi executado. Eu vi o corpo dele com um tiro. Agora apareceram quatro.” Em um texto ao Observatório da Imprensa, Luiz Victor fala que nenhuma operação com morte deve ser coroada como êxito.

Na série, a história de Pedro se encerra sendo cercado pela polícia no túnel e lançando uma granada contra a polícia, trazendo para quem não conhece a sua história, uma livre interpretação do que pode ter acontecido. Esse final perdeu uma grande oportunidade da série ser ainda mais enriquecedora, com cenas de perseguição e mostrando o drama do pai de Pedro, que chega a ver seu filho baleado e morto no Hospital Miguel Couto, no Leblon. Ao sair, com a roupa ensanguentada por abraçar seu filho, dispara para imprensa que Pedro foi obrigado a roubar para subornar os policiais militares, fato contado na série. Em entrevista na época, o ex-policial contou como foi ver seu filho morto: “uma imagem que jamais sairá da minha cabeça é a do buraco da bala em seu peito, e o fato de eu não ter conseguido fechar seus olhos. Enfiei o dedo dentro de seu corpo e toquei seu coração, literalmente, me banhando de sangue. Agora, só me resta olhar para uma foto do Pedro com a minha filha mais velha e meu falecido pai, tirada quando meu filho estava internado em Campinas, lindo.”

Luiz Victor ainda acaba levando essa história mais adiante, chegando a fazer uma publicação de que a mídia foi responsável pela morte de Pedro, em que segundo o próprio ex-policial, o colocavam como uma pessoa cruel que matava, sequestrava e cometia latrocínio (roubo seguido de morte), sendo que não havia feito isso.

A série conta com oito episódios e já está disponível no stremaing.

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