Crítica

Crítica: “Bela Vingança” é totalmente imprevisível e desconfortavelmente sarcástico a beira do aterrorizante

O longa “Bela Vingança” ganhador do Oscar de melhor roteiro original e outras quatro indicações, foi produzido e escrito por Emerald Fennell e estrelada por Carey Mulligan, conhecida por seu papel lado a lado de Leonardo Di Caprio em “O Grande Gatsby”. A obra triunfa no desconforto com seu sarcasmo ácido a beira do aterrorizante, e está longe de ser comparado com outros filmes de sua temática de vingança.

O arco narrativo se concentra na personagem Cassie, interpretada por Carey Mulligan, onde nada na vida de Cassie é o que parece ser. Ela é perversamente inteligente, tentadoramente astuta, fria e calculadora e ainda vive uma vida dupla secreta à noite. Traumatizada por um evento trágico de seu passado que a levou a desistir da faculdade de medicina, e agora a têm trabalhando numa cafeteria e morando com seus pais aos 30 anos. Porém, um encontro inesperado está prestes a dar a Cassie a chance de corrigir os erros do passado.

Fennell deixa claramente sutil a representação do homem em sua obra ao exemplificar o significado de “cara legal” mostrando Cassie, que sai toda semana, e se encontra bêbada e frágil em casas noturnas, sendo atacada por “caras legais” que no final buscam tirar proveito da vulnerabilidade da personagem, mas o elemento surpresa é quando se descobre que Cassie finge seu estado para surpreender e assusta-los com essa “pegadinha”. A diretora retrata com um olhar clínico as estruturas machistas e sexistas da sociedade que normalizam esse tipo de comportamento e a sexualização da figura da mulher.

O contorno do cenário se aprofunda ainda mais ao abordar o machismo e a cultura do estupro em lugares e situações onde não deveria existir, escancarando a falta de sororidade entre as mulheres e instituições que deveriam apoiar, mas na verdade descredibilizam as graves denúncias e ignoram qualquer vestígio de evidência. E são representadas na trama pela antiga amiga e a diretora da faculdade onde Cassie cursava medicina.

O desconforto sentido pelo espectador vem das feridas escancaradas de Cassie, que são evidenciadas nas entranhas de um modo colossal de agir e um pensamento ultrapassado do desrespeito extremo e as injúrias para com as vítimas.

A atuação fenomenal de Carey Mulligan é como se deliciar com um copo de água após uma maratona de cinquenta quilômetros, principalmente ao lado da trilha escolhida perfeitamente para cada cena, que inclui a canção “Tóxic” de Britney Spears em tons agudos, como um filme de terror. Em complemento a ótima atuação, a imprevisibilidade do filme é um grande destaque, trazendo de certa maneira frustração e prazer para o espectador que ao decorrer da obra parece nunca saber o que irá acontecer e com dificuldade tenta desvendar os próximos passos de Cassie, mas se surpreende toda vez, tornando este filme o mais convidativo e apelativo deste ano.

O final traz real significado ao título brasileiro “Bela Vingança” e grande desapontamento ao espectador que se apaixonou pela causa de Cassie. Os últimos vinte minutos da trama causa o dobro do desconforto, e uma imensidão de sentimentos confusos, o que faz desse filme chocante, assustador e catártico.

SaraFreitas
Apaixonada por cinema!

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